sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Excertos do livro: Linha Azul de Hélder Spínola

"(...) concentrando mais de metade de toda a massa humana em cidades e reclamando cada vez mais energia, água, alimentos, tecnologias e matérias-primas, despejando mais esgotos no rio, lançando mais fumo na atmosfera e asfixiando, ainda mais, o solo à sua volta (...)"

"(...) Portugal queria ser um país desenvolvido, e isso para a maior parte dos governantes e empresários, para além de muitos cidadãos, significava asfaltar e betonizar as florestas, as dunas, os leitos das linhas de água e, mesmo, os campos agrícolas. Olhavam as paisagens naturais e diziam que estavam que estavam "sujas" de mato. Olhavam qualquer terreno inculto e achavam que estava abandonado. Gostavam de fugir à confusão das cidades em espaços "naturais" onde pudessem estender romanticamente uma toalha de piquenique sobre um relvado esterilizado. A natureza tinha de ser um verde quase sintético, onde não seriam incomodados por um qualquer animal peçonhento, e onde, para observar algumas espécies de fauna, bastar-lhes-ia ir ao jardim zoológico. Gostavam de fazer férias da cidade sem abandonar o seu entranhado conforto e exigiam autoestradas até aos parques naturais para não necessitarem sair dos seus casulos viajantes. Apostavam em grandes hotéis no meio da natureza para poderem desfrutar dela a partir da varanda e tudo o que fosse património cultural cheirava-lhes a mofo, só tinha lugar num qualquer museu esquecido (...)."

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